segunda-feira, 11 de junho de 2012

chá das cinco com Bruno Perpétuo


o chá das cinco de hoje
nos convida a pensar
e quem sabe
optar por fazer diferente :)
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meu convidado é um menino muito querido
que conheço há anos amém
carioca de Nikiti
passou sua adolescência aqui nas Gerais
e foi assim que começou a fazer parte da história :)
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sempre com a cabeça cheia de ideias
com seu jeitinho cativante, sem meias palavras e brincalhão
aceitou o convite e me mandou um texto muito bacana
que divido agora com você :)
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então vamos lá
pegue sua xícara de chá
e venha saborear a bela escrita feita pelo meu amigo Nó
como carinhosamente o chamo desde o teatro da crisma
onde eu era sua irmã fútil e afetada
e ele era o menino desligadão :)
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beijos
claudinha



A obrigação da Felicidade não é uma tristeza?
                                                                  Bruno Perpétuo

Recebi um texto sobre receita de felicidade de uma antiga amiga. Poderia ser mais um texto sobre felicidade que, via de regra, tiram sempre um pouquinho da minha própria.  Mas não foi o caso. Aliás, vale a ressalva que o texto em questão nem era bem escrito. Estava longe de ser uma aula de estética literária, mas era autêntico como todo grande escritor gostaria de ser um dia. Provavelmente pela quantidade de informações contidas  no mesmo, possa ser atribuído a um engenheiro ou afim. O texto, sem maiores delongas, afirmava que o que faz com que o tempo passe mais devagar são as novidades. Resumidamente, culpava a rotina pela chegada rápida da morte. O texto, de maneira velada, era um tanto quanto hedonista, mas não entrarei no mérito filosófico do autor, e aceitarei que sua linha de raciocínio esteja mais vinculada ao epicurismo que, com ajustes, pode ser vivenciado por qualquer um nos dias atuais.
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Segundo o texto, o cérebro mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se você estiver dentro de uma sala branca vazia, você começará a perder a noção do tempo e sua mente detectará a passagem do mesmo sentindo as reações do seu corpo (batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome). Isso acontece porque essa noção deriva da movimentação e da repetição de ciclos, como o nascer e o pôr do Sol. Além disso, o texto ressalta a otimização do nosso cérebro, ou seja, ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Quando você vivencia algo pela primeira vez, o cérebro dedica uma série de recursos para compreender o que está acontecendo, para que, ao experimentar aquilo novamente, você consiga fazer de maneira mais e mais automatizada. Conforme a experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as experiências duplicadas.
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Entendendo estes dois pontos, compreendemos porque parece que o tempo acelera quando ficamos mais velhos. Afinal, ao envelhecer as coisas começam a se repetir (ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações…). As novas experiências, as que fazem a mente parar e pensar de verdade, as que fazem com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades, vão diminuindo. Chegam em um ponto que fica até difícil dizer o que tivemos de novidade no dia, na semana, no mês, no ano. Na década!.
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Sua vida caiu na rotina.
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É bom lembrar que a rotina é essencial e possibilita a vida prática que os novos tempos demandam. Sem ela, seria impossível vivenciar uma série de prazeres não perenes que fazem com que a nossa própria vida tenha sentido na filosofia da maioria esmagadora da população (filhos, por exemplo). O que é relevante no texto é que as pessoas tendem a esquecer que vivem essa rotina e assim, ao longo da vida, escrevem seu livro da vida em um só capítulo repetido - uma leitura monótona para quem lê e um argumento rápido para quem escreve.
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Felizmente, se você não esquecer disso, poderá lidar com ela e tirar da vida o melhor dos dois mundos. A otimização e a praticidade da rotina, e a excitação e o prazer das surpresas.
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Tire férias com a família sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte. Marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles. Use e abuse de rituais para transformar momentos usuais em especiais. Não faça nada por exigências sociais, elas só existem na sua cabeça. Faça por fazer. Festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, Natais, Reveillons. Participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos. Troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, Vá a shows, cozinhe uma receita nova, escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor. Reze, chore, faça papel de ridículo. Faça algo diferente. Se o motivo for seu ou daqueles que você ama (e apenas por isso) todos os rituais serão importantes, desde que você acredite neles.
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Se você não quer questionar o sistema, viva intensamente sua alienação. Apenas saiba que cedo ou tarde poderá haver uma cobrança. Se você questiona o sistema a todo momento, viva sua inteligência crítica, mas você está perdendo uma ótima oportunidade em ser bobo. E o bobo irá para o mesmo buraco que você, mas terá aproveitado muito mais sem ter sido tão chato com os outros. Para de ser inteligente e passe a ser sábio.
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Se você viver intensamente o que lhe é diferente, o tempo vai parecer mais longo. Enfim, seja diferente de quem você é, sem perder você de vista. É ele que será seu guia.


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7 comentários:

Antonio C M Macedo disse...

O convidado, desta vez, nos brindou com uma abordagem consistente, em um texto literário no rigor da escrita fácil.
Abraços

Bruno Perpetuo disse...

Obrigado Antonio Macedo. Bom saber que o estilo pretendido foi alcançado.
Abraços.

BEATRIZ disse...

Olá Bruno. Como sempre, muito bem escrito. Pena que vc tenha adbicado desta forma de arte em prol de outra (não menos louvável, diga-se de passagem). O tema também me deixou feliz. A rotina e a rapidez que o tempo passa tem sido uma constante fonte de preocupação para minha cabecinha já cheia de cabelos brancos (devidamente pintados, é claro). Gostei das soluções do texto. Quem sabe me animo a fazer meu doutorado que deixei de lado...
Beijos e obrigado por me fazer pensar!

BEATRIZ disse...

Claudinha.

Muito bom convidar antigos amigo para participar do seu chá. Excelente texto do Bruno. Beijubas para vc.

Claudia disse...

Claudinha,

Saudades dá nossa rotina de boas e/ou bobas conversas... Ah, o tempo! Desta vez ele não me impediu de vir aqui prestigiar seu chá e o texto do marido. =)

Beatriz,

Também tenho um doutorado por fazer. Que tal concluirmos essa etapa em Paris? ;-)

Beijos nas duas e no um.

Claudia disse...

Que acento foi esse no "da"?!? Viva o corretor ortográfico do smartfone...

BEATRIZ disse...

Cláudia até que não seria uma má idéia (huuumm) doutorado em Paris!!!
Tem gosto de festa. Vou pensar. Beijos