segunda-feira, 28 de maio de 2012

chá das cinco com Ana Maria Rodrigues




recebi o chá das cinco de hoje
já faz um tempo
e ele ficou guardadinho
aguardando calmamente para ser servido :)
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ele chegou assim
como antigamente
manuscrito em folhas de ofício
com um sabor impagável de boas lembranças :)
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li, reli e digitei
imaginando as cenas
e valorizando cada palavra deste registro
que com certeza vai emocionar e encantar a todos que por aqui passarem :)
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pode se acomodar
pegar sua xícara de chá
e saborear junto comigo
este precioso texto escrito por minha sogra
Ana Maria Rodrigues :)
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beijos
claudinha
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Endereço de uma saudade...
                                       Ana Maria Rodrigues
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Rua São Rafael, nº 15
Endereço de uma saudade...
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Um casarão chamado Vila Rolla, construído em 1922, onde vivi minha infância e adolescência. Minha mãe se mudou prá lá eu tinha apenas 1 ano de idade.
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A casa era grande, com paredes grossas, cozinha, banheiro grande com banheira,
quartos grandes, sala grande. Grandes? Na minha dimensão de criança. Hoje penso
que era tudo pequeno. Mas como cabia amor.
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Era uma casa cheia de crianças: irmãos, primos e vizinhos. Todos brincando,
brigando, gritando, fazendo uma bagunça danada. Brincávamos na rua: ciranda,
rouba-bandeira, pegador, passa anel e queimada. Também não tinha internet, né?
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Eu era a dona da rua: batia nos meninos descia a rua Itajubá sentada em tábua
untada com sabão até a Av. Silviano Brandão. Na frente da casa tinha um muro
com grades, onde a meninada ficava pendurada, principalmente em dias de jogos
de Atlético e Cruzeiro no Independência. Ônibus e carros passavam a nossa frente,
cheios de torcedores gritando e nós vibrávamos. Minhas vó "Celeste" me ensinou
a ser atleticana e eu aprendi direitinho. Um  dia caí do muro, bati a cara no chão
e fiquei toda preta e inchada. Um monstro!
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Nesta casa minha mãe trabalhava para uma alfaiataria e para outros fregueses,
que eram de várias nacionalidades: franceses, italianos, argentino, espanhóis...
uma verdadeira torre de babel. Certa vez, uma freguesa pediu um copo d´água
e foi à cozinha. Eu estava lá em cima de uma cadeira, lavando vasilhas e ela disse:
Que linda! tão novinha lavando pratos! e eu pensei: linda não, meleca, num tá vendo
que eu não estou gostando? Eu tinha 6 anos. Para dar conta do serviço minha
mãe trabalhava até tarde da noite e nós crianças ficávamos fazendo companhia a ela,
brincando em volta de sua máquina de costura.
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Um dia, descobri que a casa era térmica. No verão era fresquinha e no inverno
era quentinha. Me disseram que era causa da grossura das paredes e mais do
que depressa fui medir. 40 centímetros. caramba! Isso não se faz mais.
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Tinha um quintal pequeno, com um muro mais ou menos baixo que separava de
um quintal menor. Nesse quintal menor tinha uma "escadaria" que levava à parte
de cima do casarão e um portão que dava saída para a rua Itajubá. Esse muro eu
 pulava para fugir pra casa de meus primos que ficava do outro lado da rua.
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Uma vez, pulei o muro para fugir de um rapaz que queria me namorar. Coitado,
ficou esperando o dia inteiro!
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Nesse quintal eu ganhei uma serenata feita por aquele que seria meu marido.
"Com quem sonha Ana Maria?"
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Teve noites nessa casa que eu não gosto de lembrar. Tive paralisia infantil, mas
não lembro de nada, eu só tinha um ano. Mas nós crescemos, fui trabalhar, me
casei com aquele da serenata: Iraq Rodrigues, que minha prima Yolanda disse
quando o conheceu:  Puta merda, que homem mais lindo! E era mesmo.
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Nessa casa nasceu meu primeiro filho: Wander. Meu neném era lindo, fofinho e
lourinho. Diante de tanta fofura, minha tia Niva não resistiu e tascou-lhe uma mordida
no pé. Tia e filho choraram demais...
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Me mudei com meu filhinho e tive mais quatro filhos, todos lindinhos, fofinhos e
lourinhos, menos a Liza que era morena. Minha mãe continuou morando no casarão,
com minha irmã e meus sobrinhos. E eu sempre lá com meus filhos, e primos de
meus filhos.
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A casa parecia ser feita de doce: um pão-de-ló. Agradava a adultos e crianças.
A grade do muro continuava pendurada de crianças, netos de minha mãe, primos e vizinhos.
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Muito tempo depois que todos se mudaram meu irmão Reinaldo passou na porta
da casa, tinha uns pedreiros trabalhando e ele pediu para entrar e quando entrou
foi tomado de intensa emoção e chorou muito... Eu passo sempre na rua e paro em
 frente ao número 15.  Penso em pedir ao novo morador que me deixe entrar, mas
não tenho coragem. Tenho medo, não sei o que vou sentir.
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Em um centro espírita me disseram que lá sempre moraram dois desencarnados:
um índio e um padre e que o índio é o protetor de minha filha Mônica e o padre
é protetor de meu sobrinho Guilherme. Será mesmo?
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Só sei que nos meus melhores sonhos e nos meus piores pesadelos está a casa da
rua São Rafael nº  15.
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Um dia sonhei com um índio cavalgando e o cavalo caiu em um rio. No dia seguinte
meu irmão Reinaldo teve um acidente e o carro dele caiu no rio. Me falaram que o
índio tentou avisar.
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Muitas outras lembranças ainda guardo no meu coração: tristes e alegres. Tenho
muitas saudades de minha vó me ensinando a cozinhar em fogão de lenha.
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Não moro mais naquela casa, agora ela mora dentro de mim, nos meus pensamentos.
Um dia, não sei quando, espero que demore muito, muito, muito, eu deixarei de
existir,  mas a casa continuará de pé no mesmo endereço, porque foi tombada
pelo patrimônio histórico de Belo Horizonte.
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Hoje da janela do meu quarto, posso ver toda a rua São Rafael e lá em cima,
no alto do morro, a primeira casa, a de nº 15.
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Minha primeira casa!

.......

12 comentários:

Leninha disse...

é Rua São Rafael número 15, onde a gente se reunia todo final de semana, onde passávamos o natal qdo eramos criança, onde a gente brincava de cabra cega, onde a gente subia no muro e pendurava nas grades, onde a gente brincava de fazer experiências com o jogo do cebola, onde a gente ouvia contos de terror da tia có, onde a gente comia na cuia esmaltada, onde o melhor lugar pra sentar e almoçar era na escada, onde mãe se juntava com os irmãos , cunhados e primos pra jogar buraco, onde eu aprendi com minha vó a fazer arroz doce, onde o corredor era o maior corredor do mundo e a gente brincava de correr e escorregar no chão, onde eu aprendi a usar um escovão, onde a vó mandava a gente escrever redação sobre as férias pra mostrar pro pai, onde tinha o melhor macarrão do mundo, onde tinha o melhor feijão que eu ja comi na vida, onde tinha felicidade estampada na cara de todo mundo. Onde havia harmonia, amizade, carinho, e respeito. Onde nós aprendemos o que é família, onde tinha um terreiro muito legal, tinha um portão que não podia pular, mas não avisaram pra ninguém, tinha um morro enorme que a gente não cansava de subir e descer, tinha os primos grandes por perto, a Regina, a Rosana, O rogério, e o Ricardo, tinha a Tia Maza que eu amo, a Tia Yone que sempre foi mto engraçada, tinha O tio Rei sempre paparicando a Liza, o Jibão sempre zuando todo mundo, onde tinha uma cumplicidade entre os primos e irmão que tanto amo e queria ficar perto. ( Wander Rodrigues, Emmanoel Lima, Emmanoel Lima Guilherme Lima, Carlos Henrique Rodrigues, Cláudio Alexander Deiran Rodrigues, e eu e a Liza, tinha tb Paulo Santos, amigo do Wander . aiai saudade mesmo daquele tempo que a única preocupação que eu tinha eram minhas notas da escola. Saudade, saudade, saudade, essa palavra resume tudo. Então é isso, se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi. Acho que ja falei demais, se esqueci de alguém me desculpe, é mta emoção, e a idade tb né. Abraços a todos. Amo mto tudo isso. Obrigado mãe pelas lembranças e obrigado Clãudia por nos proporcionar esses momentos.

Diego R. (Nonirik) disse...

Eu não tenho muito o que falar sobre a casa em si.

Mas fiquei emocionado ao ler o que minha mãe pensa até hoje sobre esta casa.

Por quê não visitar a casa ?
Vamos lá um dia desses, trazer esses sentimentos a tona e quem sabe ver um índio cavalgando nas redondezas ?

Claudia Santos disse...

Nossa Ana, foi lindo o que vc escreveu, lá passei com seus filhos e sobrinhos muitas coisas boas,e ruins também, mas foi lá que brinquei, dancei, sorri e chorei com meus amigos, e como vc, nunca também me esquecerei daquela casa, onde fui em alguns momentos muito feliz e ali moravam pessoas que amei muito e que amo até hoje, não só os que moravam mas os que frequentavam, como teus filhos, o Kazé, Claudinho o Marcone e muitos outros. vc me fez voltar numa linda época de minha vida. Beijos Claudia Santos

Bruna disse...

Q texto mais lindooo! Vou mostrar pra Vó e se ela tiver um treco a culpa ñ é minha, viu D. ana?

Iraq disse...

É. É um endereço de saudades muitas e várias... esquisito ? Não,o portão onde comecei meu primeiro namoro sério... onde fiz tantas brincadeiras com meus filhos. Onde vi meu primogênito dar os primeiros passos... e aprender a escrever coma vó Geralda com a tenra idade de quatro anos...a casa onde fiaeui noivo, viram, meninos e meninas de hoje em dia, noivado é compromisso, e não esses anéisinhos ridículos de "compromisso". As histórias que a casa poderia contar se soubesse falar, não caberiam emm todo o Facebook.E a felicidade ali reinava. Dona Celeste fazia angu doce pro Juca...o juca pedindo a ela para ensinar-lhe como fazer, pois ela ia morrer e mãe dele (d. Geralda) não sabia fazer... os namoradas, eu e o Washington, sempre íamos juntos namorar. A Có sempre alegre e zombeteira. Gozadora... Dona Geralda sempre presente, a diversão era uma constante, brincadeiras na rua...há muito o que recordar. Mas o tempo passa e a memória já não é a mesma. Algumas coisas que não escrevo para não melindrar a algumas pessoas...foi bom viver ali. Muito bom. Ali declarei dona Geralda a "sogra mais barra-limpa do mundo". bem...tudo passa, mas a lembrança fica...e a saudade também.Parabéns, Bidu, pelo maravilhoso texto.

Cris disse...

Parabéns a todos por sentirem e compartilharem esta emoção!
Conheci a casa ainda antes de "encontrar" meu grande amor, o Cebola. Lá funcionava o studio da banda Merlin, sonho de muitos que ainda está por vir à tona...
Mas o fato é que que, em 12 anos de união, não há um momento sequer, que meu amado se esqueça da vida, da convivência, dos primos, da luta, da Vó, da Mãe e de tudo que se passou na São Rafael, número 15.
Aplausos a todos vocês!!!

Bruna disse...

Acabei de mostrar pro meu pai e pro tio Rei. Eles adoraram. Meu pai foi pra varanda e tio Rei entrou no banheiro. Acho que foram chorar escondido. rsrsrsrs. Afinal de contas, homens ñ choram, né?!

Anônimo disse...

Mãe, então você também já foi criança?
Mais uma surpresa pra mim, que sempre tive dentro dessa coisa de pensar na minha cabeça, que você e meu pai sempre foram grandes.
Legal ouvir histórias suas, não conheço muitas, e acabei me dando conta de que preciso ir mais vezes na sua casa pra você me contar tudo.
Adorei o texto e adorei a forma como você contou. Me fez ir até lá e sentir muita coisa.
Que casa mais engraçada é essa que provoca tanta reação em tanta gente? Me deu vontade de ser pequeno e esperar ansiosamente pela vó, que me levava para tomar vitamina de abacate e depois ver o trem passar. Que me deixava colocar a linha na agulha da máquina de costurar, e eu me sentia um herói, que sempre comprava o caderno do zorro pra eu poder colorir e que mandava eu fechar os olhos e quando eu abria, ela magicamente fazia aparecer um copo de ki-suco.
Que casa doida é essa que tinha um armário no quarto de cima, onde eu uma vez, à noite, abri a porta e vi uma caixinha preta. E quando abri a caixa preta vi apenas um brilho que deveria ser de um anel com alguma pedra na ponta. Mas que me fez pensar que o preto era o infinito e o brilho era o universo.
E ali eu "compreendi" que não éramos nada, senão um brilho em uma caixinha preta, dentro de um armário. E eu não tinha nem 10 anos!
Casa maluca, que tinha uma parede grossa e que perto da cama do meu tio havia uma bola de concreto perto do chão. Onde dizíamos haver, ora um tesouro, ora uma pessoa cimentada.
Que tinha histórias como você disse, de índios e padres e até do Zacarias dos trapalhões.
Ali era bom, ali era muito bom.
Mesmo quando as coisas não estavam muito boas, logo logo tudo ficava bem de novo.
Também, a gente tinha São Rafael,
o enviado de Deus para curar tudo em Seu nome.

Mônica Cristina disse...

Fui a primeira pessoa a ler o texto quando minha mãe acabou de escrever. Ela me deu no papel, eu li e ela perguntou " tá bom"?
E eu falei " ah nem, que vontade de chorar"...rs
Me deu saudade da casa, mas o que me emocionou foi ver o sentimento que ela tem em relação a essa casa, ver a casa pelo ponto de vista dela!
Eu também gostava muito de ir pra lá, e até hoje sonho muito com a casa da São Rafael, as vezes sonho que eu vou lá e desço o morro voando...rs, eu me lembro muito bem do muro com três pilastras e uma grade, eu passava por dentro da grade, me escondia no "buraco de triângulo" que tinha lá,e gostava de subir na pilastra mais alta que era a mais difícil.
Eu era uma menina 'fora da idade', coitada, queria acompanhar Wander, Leninha, Liza, Cebola, Gui, etc, mas não passava de uma tampinha, como eles me chamavam!
Mas tem coisas que não dá pra esquecer... os almoços de domingo, a comida da vó era melhor do mundo! E os netos comiam na cuia, entados na escada.
Outra coisa que eu amava naquela casa era o banheiro! Sério, amava aquele banheiro, pq tinha uma banheira daquelas antigas! E estou me lembrando agora da vó me dando banho... nossa isso tem muito tempo!
Eu gostava de subir nas paredes do corredor com um pé em cada uma, mas sempre alguém me mandava descer.
Lembro do quarto lá de cima, que eu tinha medo pq era escuro.
Uma vez minha mãe me deixou lá com a vó, e a vó tava ocupada, eu fiquei brincando sozinha. Tava muito chato então eu fugi. Passei por dentro da grade pra ela não ouvir o barulho do portão abrindo, e desci a São Rafael correndo. Correndo mesmo sem parar até chegar em casa, atravessei a av. Silviano Brandão sem olhar pros lados! Será que nessa história teve o dedo do índio?

Tio Rei disse...

Somente quem vivenciou a VILA ROLLA (nome do casarão da rua São Rafael,15) poderia relatar com tanta propriedade e riquezas de detalhe as emoções vividas nesta que é até hoje um mito de:Tristeza/Alegria, Perda/Conquista, Saudade/Quero esquecer e para mim o mais importante os segredos que estão escondidos nas pares de 60 centimentros do casarão,especificamente no QUARTO DE CIMA.
(Há se este quarto falace!!!!)

Beijos
Tio Rei

Anônimo disse...

Mãe, adorei seu texto, quando li, senti uma emoção muito grande e uma
saudade maior ainda. Aquela casa era realmente mágica, o melhor lugar
do mundo, a comida da vó era tão boa, os doces nem se fala, aquela
gelatina colorida era tudo de bom, era tão bom comer na cuia, sentada
na escada, ouvir as histórias da vó e a ela cantando. Me lembro que a vó fazia roupas pra Leninha e pra min, e eu ficava do lado dela tentando fazer roupas pra boneca.A Mônica falou que gostava de subir
nas portas e ficar na pilastra mais alta, mas a verdade é que todos nós subíamos nas portas e disputávamos a pilastra mais alta. São tantas lembranças boas, mas o que eu mais sinto saudade é da família reunida. a tia Có sempre alegre, conversando com a gente (eu adorava
tomar caldo de feijão com ela), o Gibão sempre zuando, mas as vezes
dava bronca, o tio Rei nem precisa falar, sempre foi minha paixão, e
como era bom estar sempre junto com os primos queridos, Cebola, Gui,
Cazé e Claudio. Quanta saudade, obrigada mãe, adorei.
LIZA

Lele (Alessandra) disse...

Estou atrasada na leitura mas não poderia deixar de comentar. Que história mais linda!!! Fiquei super emocionada. Também tenho uma casa assim, era dos meus tios. Foi vendida e depois reformada, ficou muito diferente, mas as lembranças sempre serão as mesmas. Também passo na porta e fico com vontade de entrar pra ver o que sinto lá dentro. Saudades... Parabéns pelo texto. Abraços